terça-feira, outubro 12, 2004

CASTELO DE BRITAS
Idas a fazenda sempre me lembram a infancia feliz que tive.
O cheiro do jardim continua o mesmo, acho que aprendi, com o tempo, a respirar fundo.
As flores parecem maiores, acho que aprendi, com o tempo, a olhar mais pra elas.
Os passarinhos vem em maior numero e cantam mais alto, acho que aprendi, com o tempo a ficar em silencio.
As nuvens movem-se mais devagar, acho que aprendi, com o tempo, a nao me mover, deitada na grama, enquanto as observo.
As criancas sempre brincavam juntas, nao importa se estavam sempre ali ou se era a primeira vez que iam a fazenda. Nao importa se eram filhos de parentes, fazendeiros, peao ou caseiro, crianca eh sempre crianca e se diverte correndo pra la e pra ca, pulando sobre as britas, subindo no peh de jabuticaba e fazendo guerra com as mais verdes.
Eu e meus primos sempre brincavamos com as filhas do caseiro, o zeh-zeh, fiel escudeiro do meu avó. Eu adorova ficar na casa deles, junto ao taxo de doce, ou fazendo queijo. Meus pais nunca se preocupavam muito comigo, eu sempre sumia e sempre estava lah, na casa do zeh-zeh, brincando as meninas e com os animais ou ajudando com a horta. Soh saia de la quando meu avó me pegava no colo e dizia, "Camil e Camila estao indo pra casa, amanha voltamos!"
Meu avó morreu a muitos anos, a fazenda desde entao nao foi mais a mesma. O zeh-zeh foi morar numa casa na entrada cidade, sempre vejo a casa, mas nunca mais vi ninguem!!!
Ontem, na volta, resolvemos parar para dar um oi. A casa eh bem simples, pequena. As meninas cresceram e descobri que eram mais velhas que eu, elas casaram e tiveram filhos e eu fui pra faculdade, como boa menina da capital.
Todos moram juntos, ali, na casa simples, arrumada e que cheira a cafeh da roca. Eu moro sozinha, tenho um computador, um notebook e baixo musicas na internet.
Na minha parede tem posters de filmes. Na casa simples, na entrada da cidade, tem na parede as tradicionais fotos de casamento, e uma foto do meu avó.
Nao sei explicar o que senti, mas nao conseguia pensar direito, minha vida voltou 20 anos, um nó na garganta, uma viagem no tempo tao boa. Senti alegria, saudade, medo... chorei um choro puro, infantil, um choro feliz.
Nao importa o quanto nossas vidas tenham mudado, nao importa o que fizemos da ultima vez que nos vimos ateh aqui, a foto do vovô Camil na frente da casa, que assim como a infancia nao existe mais, continua na parede, mostrando que alguns laços sao puros e indestrutíveis.
Acho que minha amiga tem razao, sou uma cidada do mundo, as viagens provocam impactos profundos na minha personalidade, mais uma vez sinto que depois dessa viagem minha vida nao será a mesma (e isso nao eh tao obvio quanto parece).

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